Em uma audiência pública proposta pelo Deputado Estadual Sabino, a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul discutiu, no último dia 12 de novembro, os impactos das enchentes de 2024 sobre a saúde mental da população.
A ideia de promover uma reflexão sobre o assunto surgiu em junho deste ano em outra audiência pública, também proposta por Sabino, para debater a execução do Programa Compra Assistida, do governo federal, em Eldorado do Sul. “Naquela ocasião, percebemos, pelo relato dos participantes, que o aspecto psicológico havia sido profundamente afetado. As perdas não foram só materiais, mas afetivas também. A audiência de hoje busca analisar o que foi realizado pelo Poder Público para enfrentar o problema, verificar as perspectivas de futuro e propor ações afirmativas”, justificou o parlamentar.
Representando a Câmara Municipal de Porto Alegre, a Vereadora Psicóloga Tanise Sabino, presidente da Frente Parlamentar de promoção à Saúde Mental da capital, enfatizou que as enchentes foram “a maior tragédia da história do estado”, alcançando 95% dos municípios e deixando mais de 80 mil pessoas desalojadas no pico da crise.
Ela lembrou que, embora os esforços de reconstrução física estejam em curso, “é imprescindível reconstruir também a saúde emocional dos gaúchos”, reforçando que eventos traumáticos como o vivido podem desencadear transtornos de ansiedade, depressão e estresse pós-traumático.
Tanise também relatou a destinação de emenda parlamentar impositiva para a PUC-RS, para viabilizar um programa de atendimento psicoterapêutico gratuito para vítimas da enchente — iniciativa destacada como modelo a ser replicado por outros legisladores em outros municípios atingidos.
A presidente do Conselho Regional de Psicologia (CRP-RS), Jennifer de Mello, reforçou as palavras de Tanise e afirmou: “A fala da vereadora Tanise representa exatamente o que vivenciamos no território. Não lidamos apenas com perdas materiais, mas com pessoas que chegaram até nós completamente desorientadas, sem memória, sem chão. Como psicólogos, vimos diariamente o impacto emocional dessa tragédia — e precisamos de políticas permanentes para garantir acolhimento e tratamento. Tanise traz essa visão para o debate, e isso faz toda a diferença.”
Vereadores de cidades fortemente atingidas, como Venâncio Aires, Eldorado do Sul e Alvorada, trouxeram ao plenário relatos emocionados sobre o sofrimento contínuo da população.
A vereadora Claidir, de Venâncio Aires, lembrou que muitos moradores “não conseguem mais falar ao lembrar das perdas”. Ela denunciou que o município ainda carece de estrutura adequada de saúde mental; os atendimentos estão restritos a equipes volantes. “Muitas pessoas adoeceram após a enchente, inclusive vindo a óbito por tristeza e depressão”, relatou.
Já a vereadora Daia Pires, de Eldorado do Sul — município onde 90% da cidade foi inundada — emocionou-se ao contar que também perdeu a própria casa: “As pessoas chegam no gabinete só para serem ouvidas. Perderam memórias, fotos de familiares, objetos que jamais recuperarão.” Ela informou que o município está ampliando o número de psicólogos e levando atendimento às escolas.
O Dr. Ricardo Nogueira, do Sindicato Médico do RS, foi incisivo ao apontar que a crise de saúde mental é ainda maior do que aparenta. Ele citou o colapso das UPAs e emergências, que hoje recebem grande volume de pacientes psiquiátricos sem estrutura adequada: “Estamos cheios de promessas de amor. Agora precisamos de provas de amor: mais recursos para a saúde mental.” O Dr. Ricardo ainda relatou ainda problemas graves como tempo de espera para consultas psiquiátricas, chegando a 422 dias em Porto Alegre para pessoas com TEA — número definido como “inaceitável”.
O defensor público Guilherme Mariani reforçou que, após a pandemia e as enchentes, as ações judiciais envolvendo consultas e internações psiquiátricas dispararam. Ele alertou para o crescimento das situações de risco em crianças, adolescentes e idosos e destacou que o RS é o estado com menos psicólogos em escolas públicas do país, apesar de lei federal que determina o atendimento.
Participando online, a presidente da Associação de Psiquiatria do RS (APRS), Dra. Ana Cristina, destacou a criação de um núcleo de estudos sobre vulnerabilidade climática e saúde mental da instituição. Ela reforçou que tragédias como a de 2024 tendem a se repetir devido ao cenário climático do estado e cobrou planejamento técnico permanente, protocolos e equipes formadas para futuras crises.
A diretora do Departamento de Atenção Primária da Secretaria Estadual da Saúde, Marilise Fraga de Souza, apresentou as principais ações do governo gaúcho para enfrentar os problemas de saúde mental da população. Ela disse que, logo após a enchente, a SES editou a Portaria 300/2024, autorizando o repasse emergencial de R$ 11,1 milhões, que possibilitaram a formação de 185 equipes para atuar em 97 municípios. Além disso, foram habilitados, junto ao Ministério da Saúde, Centros de Atenção Psicossocial (CAPs) para Camaquã, Cachoeira do Sul, Eldorado do Sul, Teotônia, Xangri-lá, Getúlio Vargas, São Marcos, Ibiruba, Bom Jesus e Porto Alegre, que teve também uma ampliação de 25 leitos psiquiátricos. Marilise citou ainda a habilitação de 12 oficinas terapêuticas de saúde mental, de acompanhantes terapêuticos e de leitos para Tapes e Flores da Cunha, entre outras ações.
O deputado Sabino, ao encerrar a etapa inicial de falas, reforçou que a audiência busca construir medidas concretas junto aos órgãos públicos e entidades da saúde: “Reconstruir o Rio Grande do Sul não é apenas reconstruir casas e ruas. É reconstruir pessoas.”

